sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Amor aos 60?

Adoras-me? O que é isso?
Gostas de mim? Não, gostas de ti.
Gostas sim, de reviver a sensação de nervosismo e vibração há muito adormecida, o "frisson" do engate e o que sentias outrora quando te apaixonavas, o nó no estômago que sentias em adolescente, a ansiedade de A veres e A encontrares.
Gostas de voltar a exercer e testar o teu poder de sedução, há tempos adormecido. Surpreendeste-te quando o sentiste de novo.
Gostas de te lembrar e ter prazer com um corpo 20 anos mais novo do que tu - carne mais fresca, sangue vivo.
Gostas de te sentir renascer no corpo de alguém, relembrar outros corpos por ti amados ou usados, e pensar que ainda não estás totalmente morto e que toda a emoção é passado.
Gostas de ver que as tuas declarações ocas, mas sentidas, ainda produzem algum efeito.
É a despedida do homem que foste, não gostas de mim, mas destas possibilidades que te dou.
E eu? Gosto de ti?. Não. Este sentimento comum é um egoísmo narcísico a dois.
Gosto de ouvir palavras bonitas, balelas que já não costumo ouvir, sentir que ainda produzo efeito em alguém, gosto de me sentir admirada e elogiada, alimenta-me o ego, ilusóriamente dá-me o colo que eu preciso, oiço as palavras de amor que quero, embora sabendo que tudo não passa de uma ilusão oca e louca. Sou admirada, bajulada, apreciada.
Físicamente fazes-me vibrar, tenho desejo de ser desejada, revejo no reflexo dos teus olhos, o meu corpo de outrora, que despertava amores, antes do tempo o ter consumido. Tudo passado.
E esta nossa história resume-se a dois seres carentes, imaturos, que tentam desesperadamente recuperar o passado e voltar a ser quem eram, quando tal já não é possível.
E falta-nos a serenidade e sabedoria para aproveitarmos o que temos, porque ambos temos - não serão palavras vazias de admiração, mas o verdadeiro amor de uma vida?
Vai ser quem nos vai dar a mão quando precisarmos, tratar de nós até ao fim, partilhar entre risos, passados comuns.
E isso pode ser feito com amor, ternura e ainda sexo, paixão, há que saber cultivá-los em vez de desistirmos.
Com o que temos, podemos mão na mão, namorar e olhar para o passado que, com altos e baixos, foi o que construímos, e sem medo, sabermos que o futuro está ali ao nosso lado.
Mas essa sabedoria, nós, não a temos.

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